os novos subúrbios

Os subúrbios aqui são diferentes
daqueles outros subúrbios de lá,
com as casas todas iguais, coloridas,
com tédios short stories,
férias passadas na Europa,
donas de casa de cabelos escovados,
garrafas de gin e uísque na sala de estar
e remédios para dormir prescritos
por médicos chamados Frank ou Bill.

Aqui, um anseio pelos subúrbios de lá
resultou nos condomínios fechados,
mas com a crise imobiliária estamos
todos às vésperas de um nobel de literatura
e não há quem escave a nossa vida
doméstica – nós, os vendedores
da herbalife, os litigantes
nos processos por danos morais,
no cheque especial, conhecendo
o terror do SERASA e SPC,
os compradores de carros coreanos,
os ciclistas poetas dominicais,
os frequentadores de motéis suntuosos
ao lado de ferros velhos,
os anarquistas estatais,
os funcionários públicos liberais,
os poetas de melhores causas do que poemas,
homens e mulheres de caninos afiados
mordendo sombras magras, tirando de entre
os dentes restos de uma carne podre
comida em banquetes a preço de ouro.

Que nome dar a nosso horror?
Embora despossuídos de subúrbios
como os de lá, temos médicos,
comprimidos para dormir e acordar,
férias na Europa para engravidar,
férias em Miami para comprar o enxoval,
dietas para recuperar o corpo de antes
de sermos outros para nós próprios,
crimes que uma turba enlouquecida
condena, uísque escocês comprado
no Supermercado Extra
e nightclubs que preparam gin tônica
com Gin Hendricks ou Bulldog.

Que nome dar a nosso horror
não quando gritamos, mas quando
voltamos quietos para casa –
quando esfria ao anoitecer
e não houve alarde dos meteorologistas?
Quando sai um vento gélido
de entre os galhos das árvores
como um morcego de olhos furados?
Quando cada rua de indústrias abandonadas
é um longo pavilhão vazio
com um rubro céu inglês ao fundo?
Quando uma queda de energia
impede que os elevadores funcionem
e mais – impede os portões eletrônicos
de abrirem, imitando o anjo
exterminador, mas não
em casas burguesas propícias
ao escárnio e à arte; o anjo
exterminador em nosso subúrbio
sem rosto, sem crime, sem grito,
e nós, as almas de raivas díspares,
tateando por fora as portas de um castelo
vazio e arruinado em que todos nós
caberíamos e nos mataríamos com gosto?

brilha a palavra vinífera

Brilha a palavra vinífera
no rótulo do vinho
português da sexta-feira.
Brilham a palavra e o vermelho
do vinho descrito pelo rótulo:
terroso solar cultivado
em vinhedos do Tejo ou além
e em breves quintas junto ao Douro.
Brilha a palavra vinífera
do vinho português comprado
a preço de vinho brasileiro:
um pequeno luxo para a saudade
sentida, um mínimo gesto
de liberdade inventada.
Afrouxar de colarinhos,
cair de grilhões
e a palavra vinífera
ardente como um sol depois do sol,
alta como o mais alto pássaro
em seu vôo invisível para os olhos
humanos, mas que sabemos: voa.
A palavra vinífera como um retorno
de uma estação na cidade de dias iguais –
o florir de uma primavera,
o clarear de um outono,
a brandura súbito de sol e vento
entrelaçados e a noite
em casas de aldeia, prematura,
e o fogo em torno do passado
e de uma rubra permanência avinagrada.
Brilha a palavra vinífera
no rótulo de barato vinho português:
que linda prosa, que óbvia poesia
a dos homens falidos
de olhos enevoados.

dizer que um homem

Dizer que um homem não é fruto
do seu tempo, do seu câncer
em estéril metástase é absurdo.
Sou o dia pleno e caduco,
a liberdade de carros que avançam
na estrada, tornando-se propagandas
de tevê quando recortados
contra o amarelo extremo.
Sou uma das sombras que ferem
o chão, os mares e é punhal
no peito hipócrita a visão
do planeta orbitado por dejetos
como uma colmeia afogada no azul.
Sou um dos homens que retalham
as palavras, que as dissecam
como um aluno sádico
e desinteressado e depois
na prova de anatomia não sabe
desenhar o seu coração
e apenas se lembra, aturdido,
de um par de asas desmembradas.

está dito (a partir de um mote de paul celan)

Está dito flor
é uma palavra para cegos
e
um diálogo, talvez,
com os sobreviventes.

Mas quais
e qual
a palavra para nós, os outros,
de olhos
arregalados
como os cadáveres?

a estátua de Mario de Andrade na Praça XV

A estátua de Mario de Andrade na Praça XV
é um homem vivo pintado dos pés à cabeça
de branco, um chapéu à Fernando Pessoa,
os óculos à Drummond, o terno simples
como o de que qualquer poeta funcionário
público de porta da cadeia e abaixo
não mente a tabuleta: Mario de Andrade.
O poeta morto na Praça XV, estático,
um caixote aos seus pés para angariar trocados
no sol à pino, perto de outras estátuas
e homens sonâmbulos de carne desvairada –
a miserável com o torso desnudo, Vênus
humilhada massacrada mutilada;
a miserável à sombra de Mario de Andrade limpa
com um pano imundo o seu torno desnudo
para o horror dos transeuntes, para a raiva
dos policiais militares e seus cassetetes,
e mais além, sem que o olhar complete
um panorama de 360 graus, oculto
atrás de um banca de jornais um negro
veste os seus trajes de Homem de Ferro
com a ajuda de um armeiro Sancho Pança
que por último lhe entrega a cabeça elmo
de plástico e cartolina e adiante,
em frente ao Theatro Dom Pedro II,
no pedestal, sujo de fezes de pássaros,
um soldado estátua com a mão erguida
como quem arremessa uma granada
contra o teatro e os burgueses ao redor –
gesto de congelado ódio, de incompleta
fúria de liberdade e ainda há uns outros
que dá pena descrever, apenas digo
tristes variedades de lepra, de mutilações
de nascença e outras adquiridas,
a mulher que pede os remédios
que nego, a cigana com dentes de ouro
falso sorrindo para quem a odeia
tentando ler as linhas da mão para dizer
terás um amor, derrotarás um inimigo
em meio à fuligem, à vermelha brisa
de uma anônima cidade nomeada
e vou me lembrando de outros poemas
em que eu andava por essas ruas,
em que, com o mesmo coração devastado,
comprava flores para ter com que imitar
Kaváfis – Irrompe serena a tarde de outono,
a tarde que nos leva até a praça
onde casa homem canta o seu exílio
eu escrevi numa hora de extrema doçura.
Não sei se tenho uma cidade de vida
inefável, como aquele de Jorge de Sena,
ou se uma alma de pétalas lançadas
ao fogo, ao lixo, ao desperdício,
à educação dos dias sempre iguais,
sempre econômicos, sempre perdoáveis
em meio ao tanto que não se pode perdoar,
em meio ao tanto que tenho e que é
o início da morte de um outro, o início
de uma execução em praça pública
que já ninguém quer ver: sou eu,
engrenagem de ferro culpada,
carne massacrada com gozo, alma
em pluma incinerada, como um pássaro
avião que tenta fugir do napalm
que ele próprio despejou sobre a mata.

um poeta é um anjo encantado e incandescente

Um poeta é um anjo encantado e incandescente
e a ele e a à sua matéria não se aplicam as teorias
de seu pai já morto, de sua prole já agônica
e tampouco as regras da física e da química.

Dou como exemplo a Lei de Lavoisier arruinada:
toda a esperança cantada por todos os poetas que cantam a esperança
quando mensurada é maior do que o total da esperança existente
e toda a não-esperança vaticinada por todos os poetas
que dizem ser o homem animal caído, quantificada,
é menor do que toda a não-esperança distribuída
(ainda que de maneira desigual) aos comuns
padeiros, amantes, senadores, banqueiros.

Tentar fechar a conta. Identificar o amanhã
e a sua sombra, classificá-los, averiguar o que acontece
quando evaporam ou quando orvalham as raízes,
calcular a precisa aurora em que um milagre
se converte em miséria e vice-versa e assim por diante
é trabalho mundano, terrível, talvez igual
ao dos vultos perante os quais um poeta se ajoelha
suplicando o pão, o amor exíguo,
a lei justa como a liberdade
ou um empréstimo a juros pouco extorsivos.

um homem sadio

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
“No Caminho com Maiakósvki”, Eduardo Alves da Costa

Sou um homem sadio
e por noites não dormi com a algazarra
dos gatos em festa, dos cães em alerta
e se o veneno teve efeito lento
foi uma infeliz contingência
e chega a ser uma tortura que não mereço
ainda me lembrar de certo cadáveres
com os focinhos ensanguentados.

Outro dia apenas lancei o meu nome
na petição que pôs na rua – já não recordo –
certa professora do primário,
certo escritor de idéias intoleráveis,
certo ator cuja conduta de maneira alguma
era aquela esperada pela classe.

Pode-se fazer qualquer coisa com um morto,
com as vítimas que eventualmente sobrevivam
ou com os carrascos de cabeças cortadas:
pode-se atribuir-lhes qualquer idéia,
qualquer horror que não praticaram,
qualquer culpa que não expiaram ou que expiaram
no momento certo, mas de maneira excessiva.

 

Repito:
sou um homem sadio
e por um homem sadio entenda-se um homem
de ódios brandos, opiniões fortes e assumida
insignificância; não mais do que um espantalho
na lavoura e tudo o que acontece, inevitavelmente,
são corvos que devoram os olhos de outros homens-
espantalhos e com isso salva-se a semeadura.
Atônito, impotente, vejo a história escoar entre os meus dedos.
A história viva de sangue
(mas não tenho as mãos sujas de massacres).
A história contada por mentirosos
(mas não cabe uma única mentira em meus lábios).
A história das nações conduzidas por déspotas
(mas não foi minha a submissão que lhes concedeu o poder).

Lançamento – Identidade

Agora no dia onze de Junho, às quinze horas, no Centro Cultural Palace, em Ribeirão Preto, lanço Identidade, um livro de poemas pela valente Editora Urutau. É, por assim dizer, a minha estreia no Brasil. Vários poemas já se encontram nos meus dois livros publicados em Portugal (“Em Terra Estranha” e “Calendário”) porque o que pretendi, mais do que reunir os meus poemas mais recentes, foi uma síntese do que julgo ter escrito de interessante nos últimos dezessete anos. Como convém a uma estréia: seria o equivalente de um romance de formação.
 
Não há muito mais que eu possa falar para divulgar o livro ou o lançamento, além de dizer que todos são muitíssimos bem vindos. E, como prenda ou chamariz, deixo abaixo dois dos poemas do livro. O primeiro é 20, escrito em setembro de 1999, poucos dias após o meu aniversário de 20 anos e poucos meses antes da chegada dos anos 2000. O poema que escrevi quando desisti, de uma vez por todas, de ter uma banda de rock e de todos esses sonhos ridículos. E agora, relendo o poema, vejo como o seu desencanto revelou-se premonitório do que eu iria me tornar. Importante dizer que, para Identidade, eu revisei 20, atualizando um único verso. Quase todo o poema é uma rápida colagem em que cito basicamente letras de bandas que ouvia na época (o Ziggy Stardust de David Bowie, Velvet Underground com Stephanie Says, Lou Reed com Perfect Day, Jonathan Richman e os seus esquecidos Modern Lovers). Mas é um início, e inícios – com o perdão da redundância – servem basicamente para que continuemos, tentando extrair as riquezas possíveis de um périplo que, via de regra, é marcada por mesquinhez e parcimônia.
 
O segundo poema é 30, escrito em 2010, já por ocasião dos meus 30 anos; uma evocação do meu poema inaugural, agora com um olhar ciente de que os dias são cascos de cavalo pisoteando o que um dia sonhamos ser ou o que um dia acreditamos alcançar.
 
Pois então é isso – termino aqui a breve propaganda, pronto para retomar a minha programação de todos os dias.
 
20
 
Ando tão chocado, companheiro,
há qualquer coisa de errado com este início de milênio.
Ainda não consegui os meus quinze selfies de fama
e pensar no que poderíamos ter alcançado.
O sacrifício de tantas crianças
só por anunciarmos publicamente a nossa morte.
Poderíamos ter sido maiores que os Beatles
e ao cairmos com tamanha intensidade
amparados por uma inocência qualquer
estaríamos imaginando um novo conceito de belo.
Há mesmo qualquer coisa errada
com este início de milênio;
não dependo mais de mim para morrer
e acho que vou ter de apodrecer por aí
em vésperas de me tornar um mito.
Lembro-me de quando você conheceu aquela garota,
Stéphanie, se não me falha a memória,
e de como ficava triste o seu dia
todas as vezes que ela lhe negava um sorriso.
Quando Stéphanie lhe disse que tinha medo de morrer
você finalmente terminou com a banda
para, de uma vez por todas, ir viver com ela.
É provável que ainda compartilhem
a mesma seringa suja.
Sei que a sua intenção era
tornar-se um recatado bluesman,
mas quando ela fez de você um péssimo poeta
você não sabe como foi amargo
ver o meu reflexo dentro de suas pobres canções.
E agora, no final deste dia perfeito,
você só vai colher aquilo que semeou —
talvez leve uma vida boa e quieta.
Eu vou fugir para o México
e satisfazer uma vaidade qualquer.
Despite all this, I’m a modern lover.
 
30
 
Tornei-me o recatado bluesman:
o homem que ainda busca Ítaca
mas não em águas fecundas para o heroísmo.
O homem que apenas busca Ítaca
na repetição dos gestos
na palidez dos afetos
no lento pisotear com que o tempo
transforma o rosto do meu pai
no rosto de um morto e o meu rosto
no rosto de outro homem.
As tardes — aqui, no México, em vilarejos
onde os corpos terminam
como manchas de bolor em frias paredes —
as tardes são tudo o que um homem
pode ultrapassar.
 
 
 

semana (anotações rápidas)

1.

Escrever após o horror
ou após a sua completa ausência?

Haverá diferença entre um depois e outro?

Uma semana antes de começar a escrever
sobre o meu verdadeiro ódio, escrevi
um poema claro que me pareceu tão belo
mas não o era e agora
– falhado o poema leve, apaziguada a raiva –
eu julgo ter esquecido coisas que não esqueci
como o cheiro de carne podre no açougue asséptico.

2.

Ontem, no trabalho,
eu neguei que uma mulher continuasse a crer
e só lhe restaram nomes clínicos para a sua agonia
e um delírio raivoso no calor úmido
de suas mão espalmadas implorando.

Senti-me o avesso de um deus.

3.

Eu não estava em casa quando começou a chover
mas me lembro que acordei atordoado
com a água levando as paredes, o guarda-roupas, o meu amor…

o que é um outro modo de dizer
que eu ainda não estava em minha cova
quando o espaço a ela reservado começou
a ser terra semeada com vermes ratos ossos.

4.

Os homens famintos insistem em se aproximar
enquanto você se alimenta – imploram
e repetem o seguinte argumento:
escavem o meu peito com as mãos, horrorizados,
e um sentimento de irmandade substituirá o horror.

O lirismo dos homens famintos está fora de controle.

5.

Vocês conhecem bem a minha cidade –
é a mesma de todos os meus poemas:

tem aleijados,
compradores de ouro,
alguma imagem roubada de Eliot
como o fim carbonizado dos dias,
algum entardecer roubado de Cesário Verde,
algum nojo inventado – único sentimento
que se permite ao poeta fingir,
tem o boliviano que toca canções de amor,
tem amigo que se reencontram com desprezo mútuo,
tem velórios de homens abomináveis,
tem o seu filho morto aos quinze dias de vida,
tem suicidas sem a coragem do salto.

6.

Fala-me um poema de amor chinês de mais de mil anos
de amantes unidos como o pó e a cinza.

Talvez seja assim depois que formos redemoinhos
de luz, carne e hábitos que a vertigem dos dias atravessa
e talvez seja assim um dia antes de nos tornarmos árvores.

o grande moinho

Sou grão e sou ventania
para o grande moinho
por onde passa a dor,
a violência, o silêncio
e a mentira ruidosa que,
de tão ruidosa, parece
verdade invencível.
Sou grão e sou ventania
para o grande moinho
mas antes, fora ou depois dele
sou o grão que a ventania sopra
e a ventania que sopra o grão:
semente e desperdício, esperança
e fome. Eu sou Quixote
para o grande moinho
que são os homens podres e sou
Sancho, atrapalhado e impotente,
perante o grande moinho que aniquila
o magro companheiro
e antes e depois da grande derrota
sou Rocinante pastando a grama
que o imenso moinho semeou
com as suas engrenagens de raiva e ódio,
com os seus grão degenerados,
com a leve ventania que os poetas cantam,
com a água escura que os poetas bebem.

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